Em sua coluna em ZH desta quarta, Carpinejar homenageia jovens gabrielenses mortos em acidente e lamenta tragédias no trânsito, como sonhos interrompidos (foto Diego Lopes/divulgação)

Na edição do jornal Zero Hora desta quarta (3), o colunista Fabrício Carpinejar aborda o luto causado pela morte de três adolescentes gabrielenses que voltavam do Juvenart, realizado em Restinga Seca no último domingo, 31 de julho. Com sua sensibilidade, Carpinejar homenageia em sua coluna "O sinal vermelho de São Gabriel" os jovens e lamenta os sonhos que deixam de ser realizados, além do alerta para a morte de tantos jovens no trânsito gaúcho.

O poeta, jornalista e colunista expressa a dor que a tragédia causou na cidade, que está em luto e dos sonhos desfeitos com as mortes de Melissa de Vargas Guarienti, 19 anos, Alexia Samira Velloso, 18, e Gabriel Miranda de Barros, 16, na tragédia que também tirou a vida do motorista Rodrigo Pereira Garcia de Garcia Filho, 31 anos, que dirigia o Jeep Compass que colidiu com o veículo dos jovens.

Carpinejar, que assumiu a última página de ZH com a morte de David Coimbra no final de maio, é conhecido por trazer situações da vida e fatos do cotidiano com apurada sensibilidade, como na tragédia da boate Kiss. E mesmo assim, divide opiniões. 

Confira o texto publicado nesta quarta em Zero Hora:

O sinal vermelho de São Gabriel

Quatro pessoas morreram na noite de domingo (31/7), na BR-290, na Fronteira Oeste.  Três adolescentes, de 19, 18 e 16 anos, não voltarão para as suas famílias. Vinham de um festival tradicionalista, em Restinga Sêca. 

As circunstâncias da colisão em São Gabriel ainda estão sendo investigadas. Não tem como bater o martelo sobre o motivo do infortúnio, que matou também o motorista do segundo veículo, e hospitalizou a sua esposa e filha. 

É uma desgraça que põe uma cidade inteira em luto, que arrepia pelo imponderável, que nos assusta pela fragilidade de nossos destinos. Buscamos um adeus, um pressentimento, uma explicação nas últimas mensagens trocadas pelas vítimas. Tudo o que foi dito de casual e prosaico durante o dia da despedida torna-se testamento. Áudios são reprisados sem parar, e os ecos do vazio não têm cura.  

Os parentes entram no obsessivo jogo de hipóteses, recuando progressivamente no tempo: se eu tivesse dito para não ir no festival? Se eu tivesse pedido para dormir na casa de um colega ali perto? 

É um “se” infinito, gatilho da culpa e do ressentimento. 

Você fica conhecendo os sonhos de quem partiu, que nunca serão realizados. Descobre que uma das jovens queria continuar no palco, era dançarina do CTG Caiboaté (Os Carreteiros), e que um outro gostaria de ser jogador de futebol e chegou a treinar no Esporte Clube São Gabriel. 

Os sonhos machucam quando são somente recordações de desejos, desprovidos da posteridade dos fatos. Não contaram com a chance de amadurecer fora da imaginação. Ficamos em dúvida se iriam acontecer ou não. Nunca saberemos se as expectativas mudariam e se eles tomariam um novo rumo pessoal e profissional. É uma realidade paralela que apenas continua no sofrimento dos mais íntimos. 

São várias versões de uma mesma pessoa que se apagam simultaneamente. É a Melissa, é o Gabriel, é a Alexia que somem de uma forma para os amigos, de uma diferente para a família e de uma ainda mais distinta para quem nunca os conheceu. 

Quantos eus desfeitos na multidão de uma alma? 

Nunca nos portamos de igual modo para todos, cada testemunha de nossa vida carrega uma centelha singular de nosso DNA, uma história única, uma confidência insubstituível, uma memória sem cópia e sem rascunho.

É insuportável a galopante incidência de mortes de adolescentes nas nossas estradas. Semanalmente, enxergamos um acidente fatal, um carro retorcido e irreconhecível na faixa servindo de túmulo precoce às nossas crianças recém-saídas do berço.

Reportagem: Marcelo Ribeiro 
Data: 03/08/2022 08h41
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